quinta-feira, 15 de Janeiro de 2009
Cadê a música que nos faz pensar?
segunda-feira, 19 de Maio de 2008
Café Guarany, tradição resistente
Fiquei com esta sensação após a reforma daquele trecho do centro de Caruaru que foi recuperado e urbanizado. O mesmo lugar em que a velha-guarda da cidade se encontra há anos está, enfim, com um aspecto que merece um reconhecimento respeitoso.
Quando criança, de vez em quando, eu era levado pelas mãos do meu avô até uma barraquinha que vendia frutas na calçada de uma farmácia que fica em diagonal com o Banco do Brasil. De longe eu ouvia a mistura de vozes altas que escorriam na calçada do Café Guarany. Aquele alegre triângulo de cimento que é parte integrante e indispensável do que de mais antigo ainda resta no coração da cidade.
No entanto, nunca fui um de seus freqüentadores, seria leviano afirmar isso. Aliás, queria eu estar com os cotovelos postos em um daqueles balcões sentindo cheiro de café, ouvindo histórias de gente que tem profundas raízes deitadas neste chão. Mas, o fato de ser um caruaruense - saudosista principalmente de tudo aquilo que não viveu - enchi meu coração de alegria quando vi as primeiras fitas pretas e amarelas que isolaram a área para a reforma.
Depois, fiquei passando de propósito por ali, só pra acompanhar à distância o vai vem dos pedreiros que quebravam o asfalto para preparar o trecho da calçada do BB que hoje está ligado ao Café.
Aos poucos a fisionomia daquele pedacinho da cidade foi mudando. Chegaram os postes de ferro com lustres arredondados, como se fossem duas luas. Depois os aconchegantes bancos de madeira. Em seguida os canteiros, as plantas e o busto de Zino Rodrigues, grande apreciador das conversas que circulam por ali há décadas.
Fiquei pensando na felicidade que os mais antigos devem estar sentindo ao virem que o ponto de encontro das gerações que pertecem está garantido.
Bela praça Zino! Você vai continuar ouvindo tudo que diz respeito a Caruaru sem precisar sair de lá. Vida longa ao Café Guarany e as figuras do povo que ganharam, em tempo, o que o passado da cidade tem de mais novo.
almirvilanova@gmail.com
segunda-feira, 21 de Janeiro de 2008
Conhecer o 'outro'. O que é isso?
Quanto mais amplo for o campo melhor a possibilidade de gerar boas discussões. Outro dia, por exemplo, lembrei de um professor de Antropologia que tive. Em uma das aulas ele abriu um debate sobre o que é conhecer o 'outro'.
Em primeiro lugar, segundo a abordagem do professor com base no pensamento de Claude Lévi-Strauss, a maioria da turma de que eu fazia parte naquele instante chegou a conclusão de que nós formulamos opiniões superficiais o tempo todo. Em segundo lugar, há uma acomodação coletiva que gera essa desconfiança geral nas pessoas, daí a idéia de que 'eu sou melhor que ele' toma corpo, nascendo assim o individualismo exacerbado.
Naquela aula aprendemos também que inúmeras vezes os pontos de vista que nascem da falta de criticidade científica não conseguem ultrapassar os arrecifes da ignorância. Essa mesma ignorância está alojada no comportamento de alguns grupos humanos que não conseguem desenvolver o potencial de percepção do mundo, da vida.
Lembrei desta aula porquê, de vez em quando, leio nos jornais ou vejo na rua casos e casos de pessoas que não conhecem o 'outro' que está bem ali, do lado. Mesmo assim formulam no imaginário individual perfis que não correspondem ao que elas acreditam que estão vendo.
Aprendi assim, que o problema é justamente a incapacidade de enxergar o 'outro' que agrava o estrabismo tão comum nos olhos de quem não consegue se ver bem.
Conhecer a si próprio é muito mais difícil do que conhecer o 'outro'. Afinal, não há espelhos dentro da gente, nem reflexos que nos mostrem com clareza quem está diante ou distante da gente.
Conhecer o 'outro'. O que é isso?
domingo, 2 de Dezembro de 2007
Teatro: Conjunto de peças que podem consertar o mundo!
Ao longo dos anos, outros nomes surgiram, como o revolucionário de língua espanhola Federico Garcia Lorca, e fizeram do palco, do texto e da luz, mecanismos de exercício consciente do papel social que nós deveríamos cumprir - talvez, estes cidadãos do mundo tenham antevisto todo o panorama que assistimos hoje, estranhamente conformados.
Salve os festivais! Atores, atrizes, diretores! Que sejam sempre atuantes esses militantes da Arte!
quarta-feira, 17 de Outubro de 2007
A amizade, o tempo e a despedida que não houve
Ele estava de passagem pelo centro da cidade e decidiu passar por lá pra que a gente fosse conversar um pouco sobre um assunto que também tínhamos profundas diferenças: Política.
André era defensor da prática política do PCdoB, o Partido Comunista do Brasil. Eu, por outro lado, sempre achei a trajetória do PCB - o velho Partido Comunista Brasilleiro - um exemplo de luta contra os vários regimes de excessão.
Lembro que transformamos o nosso primeiro encontro, já na condição de adultos, em uma espécie de conferência sobre a prática política do movimento internacionalista. Não chegamos a lugar algum. Quem sabe, o debate serviu para que a gente pudesse fortalecer nossas convicções... Quem sabe.
O fato é que nossas diferenças cresciam na mesma medida em que o nosso convívio ganhava intensidade. Foram muitas tardes de domingo ouvindo canções de resistência ao Golpe Militar, tardes que entravam pela noite e se resumiam a celebrações de uma época da história do Brasil que a gente não viveu.
Depois, nasceu o Projeto Bebendo Poesia. Movimento literário marcado pela liberdade de ação de três poetas caruaruenses. Estávamos sempre por lá naquelas noites de sexta-feira. André começava a declamar os poemas que aprendia a memorizar durante a semana. Sentava à mesa, aplaudia. Gargalhava se o poema era apimentado. Chorava se as palavras tocassem seu coração tão duro, outras vezes, tão mole.
Até que um dia... Aquele mesmo coração - sempre tão diferente do meu - parou de bater. A partir de então, parei de ouvir a voz do André. Parei de ser o divergente dele.
Parou tudo.
A amizade que ganhou corpo, outrora, se transformou em lívida alma, fresta de luz.
Tivemos muito pouco tempo pra trocar idéias e tempo nenhum pra se despedir, num caloroso abraço.
Se foi a vida de André Pompeu, ficaram nossas poucas semelhanças.
Não pude me despedir do meu amigo diferente.
Nos restou um adeus mudo.
terça-feira, 2 de Outubro de 2007
O pensador alemão e a necessidade de consumo
Atualmente, o quadro é outro. Não há um posicionamento coletivo contemporâneo. É como se todos nós estivessemos de um mesmo lado. O que ao mesmo tempo é mera impressão. Na verdade estamos 'sem lado'... Isso é bom?
Então, vejamos: Os fatores que contribuem para esse distanciamento da realidade que perpassa todas as camadas sociais já estavam, de certa maneira, previstos nos escritos do pensador alemão Herbert Marcuse (1898/1979). Imagine que há pelo menos 60 anos ele já falava sobre o "Homem Unidimensional".
Marcuse apontava que o avanço do Capitalismo iria, num futuro breve, criar um novo modelo humano. O crescimento e expansão das empresas nacionais e transnacionais, a oferta em larga escala, o estreitamento das relações do homem com o trabalho - tendo em vista o avanço tecnológico - juntos, ajudariam a preparar o ambiente perfeito para o nascimento do homem que encontraria na necessidade de consumo uma meta quase insubstituível para a própria vida. Embora, constatemos que nem sempre existem condições materiais para que este mesmo homem obedeça tal lei de sobrevivência.
Não é preciso ir até uma metrópole. Basta um passeio pelos centros de compras populares ou shoppings da nossa região. Quantas lojas vendem produtos que são de primeira necessidade? Estas são sempre em menor número porquê o sistema criou as 'falsas necessidades', assim chamadas por Herbert Marcuse. A vida poderia estar constituída de hábitos mais simples sem que fosse preciso estancar o desenvolvimento industrial. O detalhe é que esse desenvolvimento deveria atender a maioria das populações e não o contrário.
Marcuse afirmava ainda que o Homem Unidimensional só enxerga a aparência das coisas, nunca indo até a sua essência. Ou seja, não há questionamentos acerca do mundo que invade as nossas casas por meio da internet, da televisão ou das estações de rádio. Para ele "O 'homem unidimensional' é conformista, consumista e acrítico. Ele se acha feliz porque a mídia lhe diz que ele é feliz e, quando se sente triste, vai às lojas, fazer compras."
Conheci parte da obra deste filósofo alemão no 2° período do curso de Jornalismo. A disciplina era defendida pelo professor Florilton Tabosa. Agradeço a eles (Marcuse e Flor) a noção de que estamos mergulhados nestas 'lentes unidimensionais'. As discussões em sala de aula sobre Marcuse foram fundamentais para que algumas luzes fossem lançadas nesse porão escuro que é a alienação social, cultural e política das coisas.
Confesso que só o fato de ter, um belo dia, me sentido na obrigação de ler algo de autoria deste filósofo já valeu o curso inteiro.
Em tempo: Senti uma 'real necessidade' de postar estes escritos porquê no último fim de semana assisti novamente ao filme Zuzu Angel, do diretor Sérgio Rezende, e dessa vez fui dormir com a sensação de que minha geração, realmente, não consegue se posicionar diante dos contrastes que nos distanciam a cada dia um pouco mais.
terça-feira, 25 de Setembro de 2007
Caruaru, terra dos casarios desaparecidos
Após meu nascimento fui levado nos braços de minha mãe para a nossa casa. Sob um frondoso pé de castanholas estava fincada a morada de número 6, na Rua Marquês de Tamandaré, centro da cidade.
A infância permanece brincando dentro de mim. Trago imagens que me cercaram desde os primeiros anos de vida. Vizinhos, amigos, escolas, praças. Mas, nada se faz tão forte quanto a casa em que nasci e outras que passaram por mim nas calçadas onde caminhei um dia.
Ali, bem perto, estava a Rua da Matriz. Ela começava na esquina da Igreja de Nossa Senhora das Dores e se estendia até o fim da avenida que beijava os muros do Colégio Municipal Álvaro Lins, meu primeiro amor.
Claro que essa geografia era um equívoco. Só nos ensaios da adolescência é que foi possível conhecer os limites das ruas e avenidas que cruzam a Catedral.
Os jardins das casas que passavam pelos meus olhos no caminho do colégio me enchiam de histórias. A falta que eu sentia de uma área verde onde pudesse jogar bola e rolar na grama era compensada pela minha fantasia, quando meus desejos saltavam àqueles terraços.
Lembro que na Avenida Manoel de Freitas existiam poucos sinais de comércio. As estruturas de alguns casarões, embora conservadas, abrigavam mesas e balcões. Eram bares. O restante daquela extensão de residências intactas formava um enorme conjunto de casas que pareciam abraçar a cidade até o final da Avenida Agamenon Magalhães.
O que eu estranhava mesmo era a falta de crianças iguais a mim e que nunca estavam aonde eu tanto gostaria de estar: rolando o meu pequeno corpo sobre o capim das casas gigantes.
Continuo cruzando as mesmas avenidas. Os anos passaram, meu corpo cresceu, a paisagem mudou. Percorro os lugares onde outrora brincavam os meus mais doces sonhos. A constatação indica que não há mais cenário para a infância que permanece viva em mim. As linhas do que chamam de desenvolvimento descosturaram as cortinas do meu tempo. Retalharam o centro de Caruaru em um imenso tapete de asfalto. Do chão brotaram lojas, consultórios médicos, restaurantes, farmácias. Juntos, esses novos empreendimentos apagaram todas as belezas que poderiam, no futuro, mostrar como eram elegantes e alegres as casas da antiga Caruaru.
Atualmente na Avenida Agamenon Magalhães só existem outras duas casas do tipo. Últimas donas de uma Arquitetura Clássica que, quisera eu, o tal desenvolvimento jamais tocasse.
Bem, que os mais arrojados modernistas me perdoem a tentativa de interferir na implacável marcha do tempo. Mas, nós saudosistas somos assim mesmo... Sonhamos com a permanência das coisas mais simples. Porém, sabemos que os interesses econômicos quase sempre têm "a força da grana que ergue e destrói coisas belas" como diria a Sampa de Caetano Veloso.